UFES
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPIRITO SANTO
ESPECIALIZAÇÃO EM FILOSOFIA E PSICANÁLISE
FERNANDA PEREIRA FERREIRA LIMA
Anorexia Nervosa
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1 – INTRODUÇÃO
O estudo das obras de Freud especificamente “O mal-estar na civilização, Reflexões para o tempo de guerra e morte”, nos aponta a diversas formas de sofrimento psíquico tendo como finalidade o ideal de perfeição, remete-nos a uma análise do sentido inconsciente da Anorexia Nervosa que propõe situar o problema psicopatológico relacionando-o à concepção freudiana da melancolia e do ideal do ego.
A anorexia nervosa metaforiza a negação de um esquema corporal, no sentido que Meleau Ponty (1999) atribui ao termo. Significa a negação de um modo particular de estar-no-mundo, de uma história de vida através de uma resistência corporal ao alimento. Ou seja, a anoréxica quer negar aquilo que ela experimentou coletivamente, quer romper de certa maneira o vínculo social que a humanizou, teceu suas emoções (Maffesoli, 1998).
Ao considerar a abstinência como uma resposta individual a questões sociais (Turner, 1984), a anoréxica tenta interpretar a experiência física da dieta como uma forma de sucesso pessoal diante das crises familiares, da impotência ou inabilidade em lidar com os problemas cotidianos.
2 – DESENVOLVIMENTO
2.1 – Estudo de caso
O seguinte caso tem como protagonista uma garota que será chamada de Vitória que aos 12 anos já tinha 1,60m de altura e 49 kg, se achava gorda e tinha vergonha de sua barriga. Admirava as modelos excessivamente magras, por isso começou a fazer dietas e exercícios. Aos 13 anos estava pesando 36 kg e ainda se achava gorda. Passou então a fazer de 1 a 2 horas de exercícios 6 vezes por semana e cada vez comia menos. Afastou-se de todos os seus amigos, chorava muito e tinha vontade de morrer. Sempre que se olhava no espelho se via como uma bola e cada vez mais mergulhada em dietas e exercícios. Sua mãe percebeu que ela estava tendo tonturas e notou o quanto estava magra, resolveu então levá-la ao médico, este receitou que 3 vezes por semana deveria ir ao hospital tomar soro. Ela reagiu e disse estar se sentindo bem e no dia seguinte comeria direito e tudo ficaria bem, a mãe vendo que ela continuava tendo as tonturas a levou a força para tomar o soro. Temendo que o soro a engordasse resolveu então não comer nenhum tipo de alimento. Com isso estava pesando 32 kg e ainda assim se sentia gorda, precisava perder mais peso ainda, pois, para se sentir bonita tinha que ser muito magra porque segundo os padrões de beleza da sociedade contemporânea a mulher tem que ser assim. Sua família estava desesperada e decidiu levá-la a uma médica, ela aceitou ir pensando que mesmo se ela receitasse, não comeria e continuaria fazendo seus exercícios. Com 30 kg e muito desnutrida a médica queria interná-la porque estava com Anorexia Nervosa, mas como prometeu se alimentar, pôde ir para casa e voltar na semana seguinte. Como não cumpriu o combinado ela e seus pais levaram uma bronca da médica, eles então passaram a monitorar sua alimentação, mesmo assim conseguia burlar e esconder a comida nos bolsos e não comer. Proibida de fazer exercícios, acordava de madrugada para se exercitar.
Com ajuda e orientação da médica seus pais tiveram que radicalizar internando-a por 3 meses sendo 24 horas vigiada e obrigada a se alimentar, fazer terapia, o que a ajudou a ir se libertando desse transtorno.
Hoje com 51 kg ela tem consciência de que sem o tratamento não teria conseguido sobreviver, ainda tem um pouco de medo de se alimentar, sua auto estima está subindo, continua fazendo terapia e não tem mais vergonha de seu corpo.
2.2 – Sociedade narcisista, uma neurose coletiva
A coisa mais importante para a sociedade narcisista é o espelho, isto é, as imagens. Nessa sociedade o indivíduo depende do espelho dos outros para validar sua precária ou inexistente auto-estima, traço que marca indelevelmente o melancólico. Ficando a sós consigo mesmo, cresce sua insegurança, pois ele depende de platéia e admiração. O indivíduo utiliza outras imagens para definir sua própria imagem corporal, bem como esse processo implica numa troca relacional entre indivíduos, ou seja, aquela padronizada pela sociedade como ideal de beleza a ser seguido. Em conseqüência disso, gera alguns distúrbios de rejeição ao corpo que se tem e vai em busca deste ideal dando pouca importância a vida uma vez que a saúde fica comprometida.
Segundo Freud, anorexia toma numa dimensão sintomática, ou seja, refere-se ao sintoma anoréxico e não a anoréxicas em particular, nem a uma categoria clínica isolada. Desde suas correspondências com Fliess, afirma que “a neurose nutricional paralela à melancolia é a anorexia. A famosa anorexia nervosa [...] é uma melancolia em que a sexualidade não se desenvolveu.[...] Perda do apetite – em termos sexuais, perda de libido” (Freud, 18921899/1950: 247).
A dimensão simbólica do alimento, dos rituais de comensalidade e de compartilhamento alimentar, no caso da anorexia, são imagens que estão na gênese deste transtorno. Se tomarmos a alimentação como uma expressão da socialidade, um laço tão poderoso do vínculo social, não seria a anorexia nervosa uma forma de transgressão social?
A identificação por meio do espelho ou da imagem impossibilita uma identidade pessoal positiva e leva ao auto-exame corporal e psíquico com a finalidade de detectar imperfeições, incorreções e faltas por comparação com a imagem hiper-real.
O caso de Vitória aborda a questão do desejo, que está além de suas demandas, pois traz consigo o ideal de perfeição, a marca da insuficiência que ela vive inevitavelmente num estado latente de insatisfação e a uma desordem mental. Freud & Breuer, nos trabalhos sobre a histeria, relaciona anorexia a uma síndrome histérica (Turner, 1984)
Freud (1914) diz que o narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse ego ideal, que como o ego infantil, se acha possuidor de toda perfeição e valor. O indivíduo não está disposto a renunciar à perfeição narcísica de sua infância. O que o indivíduo projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido da infância na qual ele era seu próprio ideal.
A formação de um ideal aumenta as exigências do ego, constituindo o que Freud chama de o fator mais poderoso a favor do recalque.
O narcisismo não constitui por si só uma patologia, ele é um integrador e protetor da personalidade e do psiquismo. Lewknowioz (2005) fala-nos que estamos vivendo em uma cultura com características crescentemente narcisistas; onde há um predomínio do uso da imagem de ação em vez da reflexão para lidar com a ansiedade e um incentivo exagerado ao consumismo e ao culto ao corpo.
Nos pacientes de funcionamento narcisista há uma exagerada preocupação com a aparência; pequenos defeitos físicos são intensamente valorizados. Apresentam uma necessidade exagerada de serem amados e admirados, buscam elogios e se sentem inferiores e infelizes quando criticados ou ignorados. Têm pouca capacidade para perceber os outros, levando a vida emocional superficial. Há inclusive uma forte dificuldade de formar uma verdadeira relação terapêutica e de identidade.
Como o Mito do Narciso, o paciente com esse tipo de funcionamento constrói sua sensação de engrandecimento da auto-estima através de uma intensa desvalorização, rejeição e abandono dos objetos. E sobre a base dessa rejeição que o organismo se estrutura. (Lewkowicz, 2005).
É necessário realmente o ser humano ultrapassar valores para alcançar o ideal de beleza imposto pela sociedade e dessa forma comprometendo a saúde a ponto de em alguns casos chegar à morte? Do que é feito ou o que propriamente demarca os limites do corpo? Trata-se ele tão somente de um espaço físico e limite da individualidade ou suas fronteiras vão além, se alargando, sobretudo, ao espaço social em que é cultivado, incorporando dados do mundo e sendo marcado por ele, ao passo que esse encontro inscreve sentido sobre a espaço/temporalidade em que ele mesmo se fundamenta?
Segundo Freud “um ser humano se torna neurótico por não poder suportar a frustração (Versagung) imposta pela sociedade com seus ideais culturais”, sem que esta impossibilidade o leve ao ponto de negar todo e qualquer interesse por tais ideais. Para assumir tais ideais, os sujeitos devem estabelecer um certo compromisso entre suas exigências individuais de satisfação e aquilo que é socialmente permitido. Tal compromisso exige, necessariamente, aceitar uma certa frustração, submeter-se a certa coerção e conflito. Este é, para Freud, um traço geral dos processos de socialização. No entanto, os neuróticos vivem tal compromisso como fonte profunda de sofrimento psíquico. Entender as causas de tal sofrimento psíquico nos permite, por outro lado, apreender a verdadeira natureza dos compromissos presentes em todo processo de assunção de ideais, normas e valores sociais.
Dessa forma, poderemos partir da frustração patológica para, ao final, encontrar seus traços em todo comportamento normal.
3 – CONCLUSÃO
Conclui-se então que a anorexia é uma doença grave causada por fatores emocionais, como falta de auto-estima e depressão. A forma de encontrar a felicidade para essas pessoas é a beleza como forma de aceitação e bem estar, é claro que a mídia fornece a imagem do que elas querem ser, se um corpo magro é mais valorizado é isso que elas vão buscar sem pensar no absurdo que pode levá-las até a morte. Pode-se tomar a anorexia, enquanto experiência do corpo que se nega a comer, como metáfora de uma resistência à convivência social – de uma forma singular de socialidade.
A Psicanálise tem trazido grandes contribuições para o sujeito acometido desses distúrbios, sobre as configurações vinculares implicadas na produção desses sintomas e sua cura, o que a sociedade precisa é se informar, refletindo sobre a maneira com que indivíduos mobilizam sistemas de crenças, desejos e interesses, quando justificam, para si mesmos, a necessidade de adotar certos tipos de comportamento.
Referência Bibliográfica
SAFATLE, Vladimir. Freud como teórico da modernidade bloqueada. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Núcleo de Educação Aberta e a Distância, 2010.
MURTA, Claudia. Ensaio em Filosofia e Psicanálise. Vitória. Editora: Universidade Federal do Espírito Santo, EDUFES, 2009
WERTHEIMER, Michael. Pequena história da psicologia; tradição de Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo, Editora Nacional, 1927.
FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização, Frankfurt: Fischer, 1999.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. Frankfurt, Fischer, 1999.
FREUD, Sigmund. A psicologia das massas e a análise do eu, Frankfurt, Fischer, 1999
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