INVEJA DOENTIA
Antonio Luiz Venturini
Aluno da Especialização em Filosofia e Psicanálise
1. DEFINIÇÃO DO CASO
A Rua das Flores situada no bairro Vale Encantado, conhecida pela simplicidade das casas sem maior ostentação, na cidade de Barra de São Francisco no Estado do Espírito Santo, era uma rua tranquila, pouco movimentada, lugar até então, considerado adequado ao lazer das crianças porque não trazia preocupações para os pais já que as crianças poderiam ir e vir sem risco de maiores incidentes.
Como não há lugar de sonhos, numa tarde de sexta-feira, 14 de julho de 2006, precisamente 14h e 15 minutos um fato de grande impacto viera acarretar uma tragédia tirando o sossego da Rua das Flores.
Um homem de 36 anos, pai de três filhas entre as idades de 04, 06 e 07 anos na ocasião, tirara a vida da ex-esposa, disparando quatro tiros na ex- mulher à queima roupa.
O pesadelo tomou conta dos moradores do bairro. E o assunto da conversa entre vizinhos sempre acabava retornando ao incidente ocorrido. O ex-marido, pelo seu temperamento forte, usuário de bebidas alcoólicas e muito ciúmes da ex-mulher, de tempo em tempo estava envolvido com ela em desavenças e por várias vezes a espancara. Judicialmente já se encontravam separados, entretanto, na realidade, não aceitava que a mulher se envolvesse com outro homem.
Observava-se que todas às vezes que o ex-marido chegava à cidade com bons resultados financeiros, a mulher novamente permitia a aproximação e tirava proveito disso o que dava a ele a sensação de posse.
Essa rotina conhecida pelos seus vizinhos e moradores do bairro, vinha se arrastando há vários anos até ocorrer à tragédia mencionada.
A prisão e julgamento do ex-marido ocorreram como na maioria desses casos, onde o condenado é julgado e preso atendendo às formalidades legais inerentes a esses casos.
2. VISÃO TEÓRICA (FREUDIANA)
A partir do texto apresentado, Freud vivenciando o fato, certamente iniciaria através de indagações e anamnésia, tentando entender o porquê do ocorrido, por que chegar a um ponto tão crucial, por que matar? Se um cidadão considerado normal, apenas em casos extremos da vida chegaria a isso, por que praticar uma atitude extrema que aparentemente não se justifica. Certamente buscaria entender como se encontra o ego, o super ego o eu e o supereu desse indivíduo, de todas suas teorias, buscaria ajustar aquela ou aquelas que mais estivessem relacionadas ao caso em estudo. Como aluno percebe-se que o vasto campo teórico pode e deve ser sempre melhor estudado, através das mais variadas exposições apresentadas por Freud, certamente sempre há de se encontrar alguma ou várias de suas teorias que estarão elucidando os distúrbios da vida cotidiana.
Freud questionaria o fato, descobriria se tratar de um garoto filho mais novo, mimado por todos, parecia uma criança normal, ao se tornar adulto começou a beber, alguns diriam que pelo comportamento tratava-se também do uso de drogas, nada comprovado. Era agressivo com os pais e irmã mais nova. Ao se alistar e servir o exército sofrera um acidente de carro, ficando debilitado por 90 dias, levando depois meses para se recuperar, pelo que parece, a recuperação total se deu apenas no físico, deixando graves seqüelas psicológicas. Tornou-se mais agressivo, bebia demais, nunca se preocupou com trabalho. Por outro lado tinha sempre o que queria, quando não conseguia com os pais, recebia o apoio da irmã mais velha que até hoje acha estar protegendo-o. Casara-se com uma mulher acostumada aos prazeres da noite, isso provavelmente fez com que não confiasse nela. Alimentava um ciúme doentio, o que contribuía para discussões e até espancamento, vindo forçar uma separação. Mesmo assim mantinham de vez em quando encontros amorosos, isso dava a ele razões para vigiá-la todo o tempo. Ela por sua vez, como separada, achava-se no direito de outras aventuras. O fato se repetia até a consumação do ato criminal.
Quando Freud tem em vista contribuir com a antropologia social, apresenta os seus ensaios relacionados à sociedade, buscando responder essas questões de cunho social sob a perspectiva da Psicanálise. Através de suas análises, comparações e observações de casos clínicos em diversos tipos de neuroses, principalmente a obsessiva, apontando relações entre o desenvolvimento da civilização e a repressão dos instintos. Freud afirma impelir a agressividade e a sexualidade. Para a civilização existir é preciso à repressão dessas duas pulsões. Dizia se não existir tais instintos, não seria considerado crime, e não precisaria de uma lei, se tais instintos, como os sexuais, por exemplo, reprimidos podem ser observados como forças motivadoras das neuroses que se projetavam. Como das normas e costumes se convertem em lei, não se faz necessário, segundo Freud, nenhuma ameaça externa de punição, pois há uma certeza interna, uma convicção moral, de que qualquer violação conduzirá à desgraça insuportável. Essa desgraça insuportável é o que remete ao que Freud designou como a morte do Pai Primevo. Justifica em sua experiência clínica o que evidenciou o complexo de Édipo. Não apenas isso, mas como o pensamento obsessivo se assemelha a este esquema de sentimentos ambivalentes, repressão de desejos e forte sensação de punição, caso esse desejo seja realizado.
Caminhos muito deferentes podem ser tomados nessa direção, e podemos conceder prioridades quer ao aspecto positivo do objetivo, obter prazer, quer ao negativo, evitar o desprazer. Nenhum desses caminhos nos leva a tudo que desejamos. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir a sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ela pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo aos seus desejos. Nisso, sua constituição psíquica desempenhará papel decisivo, independentemente das circunstâncias externas. O homem predominantemente erótico dará preferência aos seus relacionamentos emocionais com outras pessoas; o narcisista que tende a ser auto-suficiente buscará suas satisfações principais em seus processos mentais internos; o homem de ação nunca abandonará o mundo externo, onde pode testar a sua força. Qualquer escolha levada a um extremo condena o indivíduo a ser exposto a perigos, que surgem caso uma técnica de viver, escolhida como exclusiva se mostra inadequada. Seu êxito jamais é certo, pois depende da convergência de muitos fatores, talvez mais do que qualquer outro, da capacidade da constituição psíquica em adaptar a sua função ao meio ambiente e então explorar esse ambiente em vista de obter um rendimento de prazer. O homem que, em anos posteriores, vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo no prazer oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada tentativa de rebelião que se observa na psicose.
Em sua conclusão em mal estar na civilização diz: A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Talvez, precisamente com relação a isso, a época atual mereça um interesse especial. Os homens adquiriram sobre as forças da natureza tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso, e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade.
3. INDAGAÇÕES
Por que, ainda hoje, com tanta evolução do mundo moderno, com possibilidades diversas nos mais variados campo do trabalho, com possibilidade de escolhas infinitas da pessoa que melhor se ajusta a cada perfil de um ser humano, escolhe-se o indivíduo que em primeiro momento parece bom, enquanto age na busca do que quer, apresenta um comportamento dócil, e no momento que observa que sua vontade não é satisfeita se acha com o direito de ceifar a vida da pessoa que não mais o satisfaz?
Existe uma da razão que poderá nos levar a entender o fato, é procurar saber, como foi o perfil desse indivíduo na sua infância, na sua juventude, na escola em que estudou como era o seu convívio na sociedade em seus mais diversos relacionamentos.
Sabe-se ser um cidadão pacato, que nunca gostou de estudar, que nunca frequentou uma igreja, entretanto, na família suas irmãs todas são diplomadas em curso superior e respeitadíssimas na área que atuam. Entretanto, o filho foge do perfil da família, sua falta de gosto pelos estudos, talvez seja uma das razões da sua debilidade emocional. A não participação de uma igreja deixa-o vulnerável por não adquirir um diferencial que coloca o limite entre o que pode e não pode e, entre o que pela sociedade e pela igreja se julga certo ou está errado e que depois se torna uma norma de conduta, torna-se uma lei que por ela direciona o padrão de comportamento que o cidadão deve seguir. Por outro lado, um indivíduo extremamente ciumento, que usava bebidas alcoólicas para ter coragem de falar e tomar suas atitudes ouve mais o seu ego e superego, esquecendo da razão dos fatos. A abordagem Freudiana apresenta e descreve os mais diversos tipos de comportamento. O caso apresentado se ajusta mais nos relacionados a sentimento de posse, transforma seu cotidiano na crença que pode exercer um domínio doentio sobre a situação, que o indivíduo acredita ter sobre a mulher, razão de sua intolerância e achar que tudo deve ocorrer conforme sua vontade. Nesse caso, nos dias de hoje, um indivíduo vivendo como nas civilizações primitivas, agindo como um pai primevo.
Fica claro que muito do que acontece, está relacionado a uma grande falta de estrutura familiar, carente em quase tudo. Pais, que ainda hoje, se encontram na mais profunda ignorância do saber. Nada tem para transferir para seus filhos. Ao tê-los acabam deixando-os expostos às mazelas da sociedade.
Por outro lado, mesmo sendo um indivíduo que teve base sólida no início da vida, a família o conduz como os demais filhos, entretanto, a situação mostra e pode ser observado um desvio de comportamento nada fácil de entender. Vê-se que nesse caso estamos vivenciando uma situação onde está prevalecendo à obsessão.
A disponibilização do conhecimento como a Filosofia e a Psicanálise, possibilitando professores e profissionais da saúde adentrar nesse misterioso campo da pesquisa e do saber, estará contribuindo para que a sociedade tenha mais perto de si alguém que possa pesquisar e entender os mais diversos tipos de comportamento, e aplicar métodos que permitam resgatar e reintegrar à sociedade indivíduos que antes, pelos seus problemas eram vistos como uma ameaça aos que se consideram normais.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1.FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização, Frankfurt: Fischer, 1999.
2. FREUD, Sigmund. Totem e tabu, Frankfurt, Fischer, 1999.
3. FREUD, Sigmund. A psicologia das massas e a análise do eu, Frankfurt, Fischer,1999.
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